17 outubro 2012

Escupimos en su alimento

Já vai quase um ano desde que cheguei à Alemanha. Por esta altura já estou habituado ao modo de vida, a linguagem vai ficando cada vez melhor, os hábitos dos alemães já deixaram de ser estranhos para mim. No entanto há ainda uma coisa, uma pequena coisa à qual ainda não me consegui habituar. O conceito da gorjeta.

Como português que sou, não estou habituado a dar gorjeta. Com a excepção dos restaurantes finos, nós quase nunca pagamos mais do que o que vem na conta, e quando o fazemos, é só para dar uns trocos ou arredondar a conta. Se pagarmos com cartão, é quase certo que não iremos deixar gorjeta. Em cafés e bares não nos passaria pela cabeça dar gorjeta ao empregado. E porque o haveríamos de fazer? Nós já estamos a pagar pelo serviço completo. Assumimos que os preços da comida e bebidas que vêm na conta já foram aumentados para ter em conta o serviço. Porque esperariam eles que pagássemos ainda mais que isso?

Bem, as coisas são diferentes aqui. Aparentemente, o serviço não está incluído na conta. Por isso se se sentarem à mesa e alguém vier servi-los, devem dar gorjeta. Devem. É que, o meu problema não é o facto de quererem deixar gorjeta, aí tudo bem, acho bem que o façam se se sentirem extremamente satisfeitos com a comida e o serviço e queiram recompensá-los dessa forma. O problema é que aqui eles esperam que nós deixemos gorjeta em qualquer das situações, e provavelmente levarão a mal se não o fizermos. Os alemães dir-vos-ão as três razões pelas quais devem dar gorgeta aos empregados e empregadas de mesa:

  • Os empregados de mesa ganham apenas o que lhes dão em gorjetas (ou quase) - OK mas, porque é que isso é problema meu? Porque é que eles não podem subir os preços para incluir o serviço, como nós fazemos? Ou então porque é que eles não incluem a gorgeta na conta? (os italianos fazem isto, chamam-lhe o coperto.) Ao fazerem o que fazem, os donos dos bares e restaurantes estão simplesmente a dizer-nos que não é problema deles pagar aos empregados, é nosso. Se nós não dermos gorjeta, eles não recebem, e nós ficamos com a consciência pesada. Além disso, estão também a baixar artificialmente os preços porque acabamos por pagar sempre mais do que o que está na conta (por exemplo, a conta diz 25€ mas acabamos por pagar 28€).
  • A gorjeta é uma forma de avaliar o serviço - mas será assim um trabalho tão difícil? É levar comida e bebidas às pessoas! Claro que a grande maioria dos empregados fará um trabalho aceitável. Sim, alguns poderão ter um desempenho excelente e merecer uma gorjeta maior, mas eu não tenho nada contra isso como já referi. Por outro lado, se o serviço foi assim tão terrível, não seria melhor dizer-lhes o que aconteceu ou fazer uma reclamação por escrito em vez de simplesmente ir-se embora sem deixar gorjeta?
  • Se nunca derem gorjeta, eles começam a cuspir na vossa comida - ou a fazer qualquer outra coisa desagradável com ela. Esta faz-me logo lembrar os arrumadores de carro em Portugal, que vos furam o pneu do carro se não lhes derem a moedinha. No fundo é uma coisa tipo Mafia, em que têm de lhes pagar para eles vos protegerem deles próprios. E eu tenho de os tratar como mafiosos porque me trazem comida e bebidas?! Está tudo doido?
Bem, pelo menos não estou nem perto dos Estados Unidos, onde a gorjeta é praticamente obrigatória e é quase 20% da conta. E aqueles sítios onde a gorjeta é incluída mas eles esperam que deixemos uma gorjeta adicional além dessa? O Sr. Larry David saberá explicar melhor que eu:


Sabem, eu pessoalmente também protesto contra a matemática. Os alemães têm um sistema, é esperado que se dê de gorjeta o equivalente a 10% da conta. O empregado dir-vos-á quanto é, adicionam 10% a isso, arredondam o resultado para cima e respondem ao empregado dizendo-lhe quanto é que pretendem pagar. Um amigo meu passa quase 10 segundos com as notas na mão a fazer as contas mentalmente para dizer o resultado ao empregado de mesa. Para que é que é isto? Se eles esperam sempre que paguemos 10% a mais que a conta, porque é que não incluem na conta esses 10%? Para mim é tão simples como isso: eles dizem-me quanto é que eu devo pagar, e é isso que eu pago.

Bem, de qualquer forma, é a sociedade deles, as regras deles, e quando vivemos em sociedade não podemos simplesmente inventar as nossas próprias regras e esperar que elas sejam facilmente aceites pelos outros. Ou nos regemos pelas regras deles ou vamos passar um mau bocado. Durante uns tempos saltei grande parte das gorjetas por causa do meu problema com os números alemães (como nunca chegava a perceber ao certo quanto era a conta, quando chegava a parte de eu lhes dizer quanto é que eu queria pagar simplesmente ficava calado e entregava o dinheiro, o que para eles quer dizer que eu não quero dar gorjeta), mas comecei a levar a coisa a sério depois de um primeiro encontro correr terrivelmente mal porque eu não dei gorjeta à empregada. A rapariga do encontro ficou chocada com a minha falta de educação, deu-me um sermão sobre a maneira de se dar gorjeta, não aceitou nenhuma das minhas desculpas e desde então nunca mais falou comigo.

Portanto agora porto-me bem mas estou sempre a pensar se devo dar gorjeta a esta ou àquela pessoa. Por exemplo, devo dar gorjeta à empregada que me traz apenas café? A taxistas? À cabeleireira que me corta o cabelo? E porque é que não dou gorjeta à caixa do supermercado? Ao carteiro por me entregar aquela encomenda que eu tanto esperava? Ao condutor do autocarro por me transportar? À menina da loja que me ajuda a escolher a roupa? Ao senhor do quiosque por me vender o jornal? Ao rapaz que me põe gasolina no carro na estação de serviço? Porque é que dou gorjeta ao empregado de mesa mas não ao cozinheiro? Raios, porque é que eu não recebo uma gorjeta pelo trabalho que faço? Se vamos começar a distribuir gorjetas, por que raio são os empregados de mesa os únicos que as merecem?

P.S.: O título deste artigo é uma referência ao filme Anchorman (em Portugal: "O Repórter: A Lenda de Ron Burgundy"). A meio deste filme aparece um restaurante mexicano, chamado "Escupimos em su alimento" segundo o letreiro. Acho que não preciso de traduzir para português, pois não?

(english version)

21 junho 2012

A carteira do George

Este é o aspecto actual da minha carteira:


A minha carteira está a um passo de se tornar a carteira do George, da série Seinfeld, uma carteira tão grossa que impedia o próprio George de se sentar direito quando ele a punha no bolso de trás das calças.

Vale a pena dizer, porém, que o meu problema não é igual ao do George. Ele tinha a carteira naquele estado porque açambarcava todo o tipo de papelinhos, recibos, cartões de contacto, números de telefone escritos em guardanapos, porque nunca se sabia quando algum deles seria preciso. Eu, embora tenha a mesma mania de açambarcar todos os papéis, faço uma limpeza periódica dos mesmos, deixando apenas os dois ou três que são realmente importantes. O meu problema é outro: moedas a mais.


Estas são as moedas que encontrei na minha carteira. Note-se a quantidade exorbitante das chamadas moedas "pretas", de 5, 2 e 1 cêntimos, principalmente destas últimas. Há uma explicação para isto. Aliás, há duas explicações. A primeira é que não deito moedas fora (como fazem alguns dos meus colegas alemães). A segunda é que não as consigo dar como troco.

Na minha terra natal não teria problemas. Aparte a trabalheira de ter que procurar as moedas na carteira (ainda mais as pequenas, que são as mais difíceis de apanhar), não me custa fazê-lo para entregar a conta certa. Na Alemanha, porém, é diferente. Dizem-me que a conta total é dreizehn, drei und fünfzig, e eu fico completamente baralhado, mesmo sabendo que isso traduzido à letra é treze, três e cinquenta. Resultado: uma nota de 20 para pagar 13,53 €. Resultado: mais moedas. Repitam isto para cada transacção que eu faço e facilmente perceberão o estado actual da minha carteira.

Não é que eu já não saiba contar em alemão. É que, com a maneira como eles dizem os números (trocando as unidades com as dezenas e mantendo as centenas e milhares), de cada vez que dizem sieben und neunzig tenho de pedir para repetir e pensar três vezes antes de perceber se estão a falar de 79 ou de 97. Pior ainda é quando adicionam as centenas, hundert neun und vierzig (149) e depois os cêntimos de euro, hundert neun und vierzig, neun und neunzig (149,99). Uma confusão!

E para alimentar ainda mais a confusão, contaram-me há pouco tempo que os alemães estão tão habituados a trocar as dezenas com as unidades que por vezes também as trocam a traduzir para inglês! Por isso estejam atentos e não se admirem se forem pagar uma conta de 25 euros e vos pedirem fifty two euros em vez de twenty five. É que os alemães podem enganar-se ao tentar traduzir fünf und zwanzig para five and twenty.

Bónus. O número 6 escreve-se sechs em alemão mas lê-se zex e não sex. Apercebi-me disto um pouco tarde demais: o resultado foi que no restaurante quis pedir o prato número 6 e em vez de dizer ich will sechs (eu quero o seis) acabei por dizer à empregada ich will sex (eu quero sexo). Não sei porquê, ainda hoje os meus colegas alemães fazem questão de me lembrar dessa história e de rir às gargalhadas à minha custa...

07 junho 2012

Patos e assistentes do House

Não é comum eu falar de trabalho neste blog, mas é o que vou fazer hoje. Embora este tipo de situação possa igualmente acontecer fora do trabalho. É algo que experienciamos frequentemente na nossa rotina diária. E embora tenha descoberto estas duas técnicas através de blogs de programação, elas podem ser aplicadas em qualquer tipo de profissão.

Suponha que tem uma mente brilhante. Ná, estou a brincar, claro que não é preciso supor. Você já tem uma mente brilhante. Mas todos sabemos como as nossas mentes brilhantes se distraem por vezes, ou ficam demasiado concentradas, e volta e meia descobrimos de repente que temos o mais simples dos problemas e não conseguimos resolvê-lo. Lembra-se de como isso o irrita?

A forma mais fácil de resolver isto é procurar uma mente mais brilhante que a sua e pedir a sua ajuda. Problema resolvido. Só que, às vezes não é assim tão fácil encontrar essa pessoa. Essa pessoa pode não existir (se você já for a mente mais brilhante na sua área de especialização); ela pode existir mas estar inacessível; ela pode estar acessível mas ser também um idiota que não gosta de ajudar os outros; ela pode não ser um idiota mas estar farta de idiotas como você que a fazem perder o seu tempo com perguntas de jardim-escola. Seja qual for o caso, não há ninguém a quem possa imediatamente pedir ajuda. Mas ainda não está completamente tramado. Há mais duas coisas que ainda pode tentar, e que eu vou mostrar a seguir.

1. Pergunte ao pato


"Perguntar ao pato" é apenas um dos termos que eu escolhi para descrever esta solução. Outros poderão chamar-lhe Depuração por Pato de Borracha ou Resolução de Problemas por Pato de Borracha. Este método já existe pelo menos desde 2002, mas foi a partir de uma história mais recente que pude compreendê-lo e aclamá-lo como uma excelente solução para os mais variados problemas. Nesta história, o chefe de um jovem designer que está farto de ouvir sempre as mesmas perguntas fáceis encontra uma forma original de se livrar do problema:
Bob apontou para um canto do escritório. "Naquele canto," disse ele, "está um pato empalhado. Eu quero que faça a sua pergunta a esse pato."

Olhei para o pato. Estava, efectivamente, empalhado, e definitivamente morto. Mesmo que não estivesse morto, não seria provavelmente uma boa fonte de informação sobre design. Olhei para o Bob. O Bob estava sério. Ele era também o meu superior, e eu queria manter o meu emprego.

Desajeitadamente, pus-me ao lado do pato e inclinei a cabeça, como que a rezar, para comunicar com o pato. "O que é que está a fazer?", perguntou o Bob.

"Estou a fazer a pergunta ao pato", disse eu.

Um dos superiores do Bob estava no escritório. Sorria como um sacana, de volta do seu palito. "Andy", disse Bob, "eu não quero que reze para o pato. Eu quero que FAÇA AO PATO A SUA PERGUNTA."

Mordi o lábio. "Em voz alta?", disse.

"Em voz alta," disse Bob com firmeza.

Pigarreei um pouco antes de começar. "Pato," disse.

"Ele chama-se Bob Junior", interveio o superior do Bob. Mandei-lhe um olhar fulminante.

"Pato," continuei, "preciso de saber, quando se usa um suporte de correia, o que é que impede o tubo do aspersor de saltar fora da correia quando a cabeça descarrega, fazendo com que o tubo..."

Estava eu no meio da pergunta quando, de repente, a resposta me veio à cabeça. O suporte de correia está suspenso da estrutura acima por uma haste roscada. Se a junção do tubo cortar a haste de forma a que ela fique junto ao topo do tubo, ela vai essencialmente segurar o tubo no suporte e impedi-lo de sair. 

Virei-me para olhar para o Bob. O Bob acenava. "Já sabes o que é, não sabes?", disse ele.

"Coloca-se a haste roscada no topo do tubo," disse eu.

"Está certo," disse o Bob. "Da próxima vez que tiver uma questão, quero que venha aqui e pergunte ao pato, não a mim. Faça a pergunta em voz alta. Se depois continuar a não saber a resposta, nesse caso pode perguntar-me a mim."
Aconselho-o a ver o artigo original (em inglês) para saber a história completa.

A ideia por detrás disto é que o simples facto de colocar o seu problema na forma de uma pergunta ajuda-o a solucioná-lo. Antes de colocar o seu problema a alguém, ele faz sentido na sua mente. No entanto, quando tenta estruturá-lo na forma de uma pergunta irá verificar que é mais difícil fazê-lo do que pensava. Na tentativa de dar a volta à questão para a tornar mais clara, apercebe-se subitamente que está a olhar para o problema da forma errada. A solução surge facilmente logo a seguir.

Já experimentei usar a solução "perguntar ao pato" inúmeras vezes. Não que eu tenha mesmo um pato de borracha, ou empalhado, mas isto pode-se fazer com qualquer coisa. O autor original da história acima usou mais tarde uma fotografia de Newt Gingrich. E você pode também usar a sua mascote favorita, ou mesmo nenhuma. Eu, pessoalmente, prefiro usar o email em vez do chat (e às vezes até de falar pessoalmente) para colocar as minhas questões. 40% das vezes acabo por não enviar o email porque achei a solução enquanto escrevia a pergunta. E quando os meus colegas me fazem perguntas pelo chat, por vezes peço-lhes para esperarem 5 minutos antes de eu responder. Após 2 minutos recebo outra mensagem a dizer "Esquece, já resolvi o problema sozinho". (e nessa altura, respondo "Estás a ver? Fiz com que perguntasses ao pato!")

2. Pergunte a um assistente do House


Os patos podem por si só resolver alguns dos seus problemas. Mas às vezes perguntar ao pato não chega. Eles estão sempre tão... sossegados. Às vezes é necessário um pouco de feedback, e se precisar de feedback, então precisa de um assistente do House.

Eu inventei o termo "assistente do House" por causa da série Dr. House (House M.D.). Se já viu mais que um ou dois episódios da série, então já sabe provavelmente que é sempre o próprio House que descobre a doença que o doente tem no final do episódio. Então para que é que ele precisa de três assistentes?

Bem, o próprio House, o personagem, disse-o já algumas vezes, ele precisa de ter assistentes. Ele precisa das sessões de brainstorming que eles fazem na tentativa de resolver o problema do paciente. Ele precisa de alguém que fale com ele, que lhe responda, porque é no meio dessa conversa que a solução aparece, como por magia.

Um dos meus episódios favoritos do Dr. House acontece quando ele está dentro de um avião com um homem que tem uma potencial doença contagiosa. Uma vez que ele não tem acesso aos seus assistentes, ele escolhe três passageiros do avião completamente ao calhas para conversar com ele sobre o assunto. Mesmo não sabendo nada de medicina, os passageiros ajudam-no a descobrir o que o paciente realmente tem.

Portanto, se precisar de ajuda com o seu problema, só precisa de pedir ajuda a um assistente do House. O seu assistente do House pode ser qualquer outra pessoa: ela não precisa de perceber daquilo em que está a trabalhar; se calhar até é melhor que não perceba. Explique o seu problema de maneira a que ela possa entender (uma forma de perguntar ao pato), e depois deixe-a conversar consigo sobre o assunto e sugerir soluções, por mais descabidas que sejam. Um assistente do House dá-lhe uma nova perspectiva do seu problema, ainda que lhe pareça a ele que só está a dizer coisas sem sentido. Ficará espantado com a rapidez com que a solução aparecerá depois de falar com um assistente do House, especialmente se antes tinha passado horas a remoer sozinho no assunto.

Eu pessoalmente não tenho muita experiência em usar assistentes do House, mas já me pediram para me tornar num deles. No fim, o meu colega agradece-me entusiasticamente por lhe resolver o problema, ainda que eu fique com a sensação que não fiz grande coisa. Só disse umas baboseiras ao calhas e de repente o problema estava resolvido sem eu saber. Portanto, se alguma vez lhe pedirem para ser um assistente do House, deve saber que vai-lhe parecer um bocado esquisito, mas é mesmo assim que funciona.

Problema resolvido.

(english version)

23 maio 2012

To bidé or not to bidé

A sociedade de hoje em dia debate-se frequentemente com temas fracturantes, que geram polémica, conduzem a um extremar de posições, acirram os ânimos, incitam ódios e até violência entre as pessoas. Os homossexuais, devem poder casar-se? A eutanásia, deve ser permitida? As drogas, devem ser despenalizadas? O Benfica, é ou não é o melhor clube do mundo? Temas destas dividem a população ao meio com cada uma das metades a odiar a outra, e é assim que o mundo avança. Pois bem, já era altura de alguém lançar mais um tema fracturante para cima da mesa: O Bidé, é mesmo necessário nas nossas casas de banho?

Photo: Chell Hill
Há referendo sobre isto? Eu acho muito bem que devia haver. Antes de mais um pouco de história, porém, para podermos enquadrar devidamente este tema. Em primeiro lugar, a palavra bidé vem do francês bidet que quer dizer pónei. E disto, meus senhores, ninguém fala. Porque o que acontece na verdade é que as pessoas não se sentam simplesmente no bidé, elas montam o bidé. Com uma perna de cada lado, como se fosse um cavalo. Consta que o primeiro bidé foi encomendado pela rainha de França, cerca de 1710, que andava incomodada por não ter um sítio onde lavar as suas partes baixas. E a partir daí o seu uso proliferou, com cada vez mais mulheres a regozijar-se por poderem montar o recipiente.

Ao longo dos tempos os bidés passaram dos quartos para as casas de banho, ficaram a combinar com as sanitas, a ter água morninha e até, mais recentemente, a ter uns jatinhos verticais que acertam mesmo na zona que se pretende... aaaa... higienizar. Quer dizer, não sei se vêem como eu o rumo que a história está a tomar, é verdade que oficialmente o bidé serve apenas para a higiene das partes inferiores do corpo, mas a mim começa a parecer-me mais um instrumento de prazer do que de higiene! É um escândalo!

Há aqui duas questões essenciais a colocar. A primeira questão é se o bidé é mesmo necessário. Eu moro numa casa sem bidé e não lhe sinto a falta. Alguns e algumas colegas que consultei sobre o assunto também dizem que não o usam com grande frequência. Além disso, dizem as minhas fontes que os bidés nem são assim muito utilizados no norte da Europa, apesar de estarem na maioria das casas portuguesas e italianas. A segunda questão é porque é que o bidé aparenta ser um instrumento exclusivo para as mulheres. Quer dizer, a existir o recipiente, também nos dá jeito a nós, homens, em certas e determinadas circunstâncias! Eu cresci a pensar que o bidé era um instrumento unisexo, que servia para homens e mulheres em total igualdade de direitos. E no entanto, todas as particularidades, as pequenas inovações como os jatinhos verticais ou a possibilidade de orientar o bico da torneira, não têm qualquer utilidade para os homens. Será assim uma coisa tão essencial para elas?

É com certeza extremamente essencial segundo a maior autoridade em bidés que eu conheço, e que é: o meu pai. Não sei exactamente como é que ele sabe, mas o meu pai sabe que em qualquer casa que tenha mulheres tem de haver um bidé. E deu-me duas provas disto:

Prova número 1: o meu pai colocou um bidé numa das casas de banho do escritório na empresa dele. Um dia perguntou-me se eu andava a usar a casa de banho das mulheres.

- Das mulheres?! - perguntei eu, surpreso.
- Não andaste a usar a casa de banho da direita?
- Andei.
- Então, essa é das mulheres.
- Mas não há nenhum sinal a dizer que a casa de banho é das mulheres.
- Mas essa tem um bidé.
- Hã???

Porque raio é que a casa de banho se torna exclusiva das mulheres só porque tem um bidé lá dentro? Os homens não podem usar o bidé porquê? E porque é que elas precisam do bidé tão desesperadamente? Além de que já perguntei a algumas mulheres se usariam o bidé na empresa e todas me disseram que não, por isso não sei o que é que aquela coisa está ali a fazer.

Prova número 2: o meu pai decidiu remodelar um espaço que usa para fazer petiscos e parte da remodelação envolveu a casa de banho, que era uma coisa simples e passou a ser uma casa de banho completa, com chuveiro e tudo. E nisto, decidiu retirar o urinol e colocar um bidé.

E isto é que me deixa revoltado. Foi tirar o urinol, esse sim uma coisa útil e usada com frequência, esse sim um instrumento higiénico que nos permite o rápido alívio da bexiga sem salpicar toda a área envolvente da sanita, esse sim que devia existir em todas as casas de banho, para pôr um bidé?! Um bidé num espaço que só se usa para festas? Se o bidé for usado duas vezes num ano já é muito!

Por isso, meus amigos, temos de tomar uma posição. Admitamos que já não estamos no século XVI, e  que esta atrocidade que polui as nossas casas de banho já está completamente ultrapassada. Sonho com o dia em que todos os bidés das nossas casas de banho sejam substituídos por urinóis, isso sim, seria bem bonito. É preciso debater este assunto com urgência. O debate sobre o bidé, tem de ser posto em cima da mesa! To bidé or not to bidé, eis a questão!

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11 fevereiro 2012

Poderoso te tornaste, o lado negro sinto em ti

Podem não perceber pelo título, mas este artigo também é sobre a língua alemã. Continua a ser a coisa mais estranha que tenho experimentado por aqui, e por isso a mais fascinante. Como dizemos em Portugal, para falar alemão basta pôr uma batata quente na boca (curiosamente, os alemães dizem para fazer isso para falar espanhol). Sim, talvez possam fazer isso e soar como os alemães, mas nenhum alemão irá percebê-los, né?

Então porque estou eu a citar o Mestre Jedi Yoda? Porque, ainda que a lenda diga que ele nasceu num planeta desconhecido mas distante, eu acredito plenamente que o Mestre Yoda era alemão. Sim, este é o planeta, este é o país onde o Yoda aprendeu a falar. Porque se há gente que consegue pôr uma frase inteira de pernas para baixo (ou de trás para a frente, para ser mais correto), são os Alemães. Eles trocam tudo: trocam o sujeito com o verbo, o sujeito com o objecto, o objecto com o seu pronome... Eles até trocam as unidades com as dezenas ao dizer os números, mas depois dizem as centenas e os milhares na ordem correcta (quer dizer... para quê???)

Se ainda não perceberam o que eu quero dizer, proponho-me a fazer um pequeno exercício: vou tentar contar-vos aqui uma das minhas histórias em português, mas com a ordem das frases em alemão. OK, aqui vai:

Portanto, quando me deram o meu contrato de apartamento, disseram eles a mim que eu tinha que no Burgeramt da minha cidade me registar. Avisaram-me que provavelmente não havia ninguém lá que inglês falasse, por isso pedi eu a um dos meus colegas germanófonos para comigo no Sábado seguinte ir. No entanto, quando ele descobriu que aos Sábados o sítio só de manhã aberto estava, me tentou logo convencer a para um dia da semana adiar, porque ele nos Sábados de manhã que dormir tinha.

O Sábado de manhã chegou, e de repente vi-me no número três e vinte da Schulgasse, o sítio do Burgeramt. Pensei que talvez pudesse eu a minha sorte tentar e entrei. Quando à senhora que estava ao balcão disse as minhas favoritas palavras em alemão, Sprechen Sie Englisch?, respondeu ela Nein, e eu fiquei um pouco desapontado. Mas depois olhou ela para os meus papéis e perguntou Anmelden? E eu sabia que isso queria dizer "registo" por isso respondi eu Ja. Ela apontou para umas escadas e disse umas coisas incompreensíveis. Já não me preocupei em saber o que ela queria dizer, simplesmente saí e dirigi-me para as escadas.

Quando as escadas subi, encontrei eu nada. Nem escritórios, nem balcões, nem pessoas. Nessa altura achei eu que era melhor desistir, de qualquer forma não ia conseguir a mim nesse dia registar. Era melhor mais tarde voltar com alguém para ajudar.

Voltei no Sábado seguinte com um outro colega meu. Ele era alemão, por isso eu sabia que ia conseguir desta vez. Ele falou com a senhora do balcão, ela disse umas coisas outra vez, e nós saímos.

Dirigíamo-nos para as escadas mais uma vez quando o meu colega de repente parou e sentou-se num sofá que no caminho estava. Ele era o único dos dois que o que estava a fazer sabia, por isso sentei-me eu também. Mas no princípio não estava a perceber, não era suposto a algum lado irmos fazer o registo? E só mais tarde é que de repente percebi: afinal, da primeira vez quando a senhora para as escadas apontou não queria que eu as subisse, queria é que eu me no sofá sentasse e esperasse!

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